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O BENÉFICO ACTO DE OUSAR

22-09-2023 - Maria do Carmo Vieira

Somam-se estudos sobre os nefastos efeitos do excesso de uso de computadores e telemóveis, em crianças e adolescentes. Sabemos por médicos de Saúde Mental, e não só, que computadores e telemóveis se podem transformar em aditivos, ou seja, vícios com os quais é difícil de lidar, tratando-se sobretudo de crianças e adolescentes cuja personalidade está em formação e desenvolvimento. Em contrapartida, muitos encarregados de educação, os que, em princípio, deveriam proteger os seus filhos e educá-los, presenteiam-nos com os ditos, para que se entretenham horas a fio, decisão acompanhada quantas vezes da justificação de que se os outros têm, o meu também terá (ouvi-o um sem-fim de vezes). Uma espécie de absurdo «direito à felicidade», doença que bizarras teorias da educação trouxeram para a Escola e estatelaram em frase escrita no quadro, quase como uma obrigação a que professor algum deveria escapar. Assisti à encenação e quiseram forçar-me à mesma, em vão.

Associada à frase «Tenho direito à felicidade», que tantas crianças e jovens leram repetidamente, em inícios de anos lectivos, somou-se a ideia controversa de que à Escola caberia a educação, esquecido que foi, voluntariamente, o seu papel substancial: INSTRUIR. A educação, na verdade, cabe aos pais ou encarregados de educação (e realço a expressão) que devem zelar e proteger os seus filhos; à Escola, caberá fundamentalmente instruir e, sem dúvida, também apoiar na formação da personalidade dos alunos. Aliás, o convite à leitura de obras literárias que em si contêm a vida autêntica, sobre a qual se deve reflectir, e em que o Outro é elemento fulcral, o debate sobre a condição humana que a Filosofia despoleta, mais em profundidade, o reencontro com o povo que fomos e as heranças recebidas que forçosamente determinam o raciocínio crítico, tudo se conjuga para o desenvolvimento de uma personalidade. Mas há, quem no Ministério da Educação (sentido plural do tempo) nunca tenha dado por isso.

O Ministério da Educação (ME), e independentemente de quem nele reine, tem--se mostrado, ao longo dos anos, orgulhosamente indiferente ao que se vai sabendo por estudos de carácter científico, na área tecnológica, completamente endeusada, não sendo por isso excepção o actual Ministro. Aliás, todos têm primado por um discurso perversamente bondoso, tratando-se de alunos e também de professores. Todos têm estado sempre «atentos aos problemas», «não andam distraídos», «solicitam estudos» e mais estudos e «avaliarão depois resultados». Como se, na verdade, fossem precisos mais estudos! Como se não estivessem devidamente fundamentadas as razões que apontam para o excesso de tecnologia na sala de aula.

Sabemos que a tecnologia móvel é uma ferramenta a aproveitar e benéfica em variadíssimos aspectos, mas pede-nos a sensatez que a não endeusemos e estejamos atentos a nefastas consequências. Efectivamente, nós, professores e educadores, somos os adultos, ou seja, aqueles a quem crianças e adolescentes confiam e de cuja protecção muito naturalmente precisam, para além de termos o dever de as estimular a reflectir sobre o que se passa à sua volta. Não queiramos um mundo às avessas!

Para exemplificar esse endeusamento que se alia também ao absurdo, basta lembrarmo-nos do que se passou com as provas do 2.º ano do 1.º ciclo (ano lectivo de 2022-2023), ao arrepio da vontade de professores e encarregados de educação, em que os alunos, sem domínio de escrita e numa fase em que ainda educam a sua mão a escrever, usaram o teclado do computador para realizar a prova de aferição. Certamente que só para colocar cruzes. Será esta a nova escrita que se avalia? Realce-se uma reportagem do jornalista Matt Richtel do New York Times, em 2011, já lá vão uns anos, na Escola frequentada pelos filhos dos trabalhadores da Google ou da Apple, em que referia «não se [encontrar] um único computador. Nenhum écran. Não [sendo] autorizados na sala de aula», e substituídos pelos tradicionais «papéis e canetas» ( https://forum.pt/estudar/usar-telemovel-na-sala-de-aula-sim-ou-nao) São muitos também os especialistas em educação e, em especial, os professores, lamentavelmente, nunca ouvidos pelo Ministério da Educação, que alertam para o pernicioso que é a «aprendizagem distraída», reconhecendo-se também, e por experiência, que não é a tecnologia que propicia ou estimula o desenvolvimento do espírito crítico, antes o anula. Talvez seja isso mesmo que uma sociedade selvaticamente globalizada e desumanizada, porque apostada na euforia do lucro fácil e rápido, pretenda: gente obediente, consumista de informação duvidosa e incapaz de raciocínio crítico, em suma, gente-rebanho sem capacidade para reagir criticamente seja ao que for.

Felizmente, haverá sempre quem saiba desmontar tais discursos e ouse dizer Não! ou que o Rei vai nu! Essa ousadia aconteceu com a Câmara de Almeirim, atenta às preocupações do Conselho Municipal de Educação, ao proibir o uso de telemóveis nas escolas do 1.º ciclo, no próximo ano lectivo, gesto seguramente apoiado pelos professores da zona, pensando nos seus alunos, e apoiado pela maioria de encarregados de educação, conscientes todos da necessidade de recuperar o significado de ensinar, em nome da qualidade da aprendizagem, contrária a uma «aprendizagem distraída».

Salientando o papel pioneiro da Câmara de Almeirim e a sua atitude exemplar, facto que forçosamente suscitará muitas adesões, não poderia deixar de referir o jornal Notícias de Almeirim e o seu coordenador, Eduardo Milheiro, cujo empenho, persistência, respeito pelos leitores e força contagiante merecem ser também relevados. Tudo em nome da qualidade do Ensino e da Informação!

Maria do Carmo Vieira

 

 

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