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CONTOS ESTIVAIS

08-09-2023 - Francisco Pereira

Confesso que é com cada vez mais fervor que adoro fazer férias numa qualquer praia, mentira, estou a ser irónico, sinto precisamente o contrário, é com cada vez mais fervor que odeio as experiências pelas quais se passa frequentando praias. Odeio desde logo, criancinhas aos berros, é com verdadeiro e apaixonado ódio que detesto toda aquela turba de fedelhos, muito mal educados, verdadeiros terrores tirânicos que para além de tiranizarem os pais incapazes, a quem nunca deveria ter sido permitido terem filhos, tiranizam todos os pobres veraneantes que apenas queriam ter umas horitas de sossego, a ouvir o mar, as gaivotas, e as crianças normais, que já quase não existem, daquelas que fazem barulho, mas um saudável barulho que sempre se ouviu nas praias, composto por gargalhadas, um grito ou outro a chamar alguém, cantigas e ainda mais gargalhadas, isso era saudável e preferível ao hediondo inferno sonoro criado pela maioria dos fedelhos birrentos actuais.

Odeio igualmente as raquetes, sabem, aquelas raquetes de praia, com as quais incontáveis milhares de energúmenos, desculpem mas outro epiteto não consigo arranjar para descrever essa rapaziada, a turma dos raqueteiros, bastam apenas aqueles sons de um baque seco da bola a bater na raquete para que de imediato me surja urticária, junte-se os urros que os contendores vão lançando, como se aquele fosse um campeonato olímpico, mais a bola arremessada com raiva que atinge o sossegado veraneante adjacente no totiço, para eu quase desejar que naquela praia caia um míssil.

Odeio do mesmo modo os tarados da bola, outra corja de cretinos, que se dedica exclusivamente a desfazer o sossego dos outros, esta classe de aspirantes a empurra bolas é quase sempre composta de jovens ou então barrigudos com idade de ter juízo, uns e outros armados em tarzans, adoram jogar à bola, nada contra, excepto quando o fazem em plena praia, incomodando toda a gente com uma barulheira infernal, boladas ocasionais e um linguarejar digno de um prostíbulo, são seguramente a mais obnóxia das espécies da abundante fauna das praias, e mesmo com legislação, para “inglês ver”, como são a maioria das leis deste país, que proíbem os empurra bolas nas praias, infelizmente ninguém quer saber.

Odeio as famelgas barulhentas da geleira e do rádio com música aos altos berros, quase sempre pimbalhadas, forrós, kizombas e lixo sonoro desse tipo, a maioria dessa gentelha, fala com urros, dos fedelhos ranhosos até às matronas avantajadas que tentaram entrar em fatos de banho vários tamanhos abaixo, para nos revelarem as suas carnes redondas e gordas, enquanto os machos alfa da famelga bebem cervejas como se o Mundo fosse acabar, tudo isto numa Babel de algazarra que fará o mais ternos dos santos começar ao fim de cinco minutos a destilar pensamentos homicidas que passam por envenenar as inúmeras caixas de plástico de croquetes, rissóis, coxinhas, e demais iguarias que arrastam para a praia, transformando a estadia nas redondezas de tais sevandijas, numa das mais terríveis e pavorosas experiências que se pode ter numa praia, pior que isso só ficar perto de uma manada de famílias daquelas “benzocas”, onde abundam os “Joões Marias” os “Bernardos” e as “Franciscas” mais as “Constanças”, onde as mulheres da manada parecem todas sofrer dos adenóides, onde se tratam uns aos outros por “você” ou por “tio” e ou “tia”, manadas essas que no concerne ao respeito pelo sossego dos outros ainda são piores que a turma do croquete e da chinfrineira, ah como os odeio, a toda essa gentalha.

Passa pouco das 14 horas, faz um calor dos infernos, pelo menos é a esse local que associamos estas dantescas temperaturas, estou numa esplanada à espera da minha esposa, para almoçarmos e depois lá para as 4 ou 5 irmos até ao areal até ao Sol se pôr bem para lá do horizonte, enquanto espero, bebo uma imperial, a primeira de umas quantas, mais uns cigarritos, ai os diabetes, espero que a minha médica não leia isto, bem se calhar já não tenho sequer médica de família, mas pronto, espero que não leia isto. Debaixo daquela torreira cirandando pelo grande terreiro frente a esta esplanada, vão circulando os veraneantes, uns a fugir do areal outros a correr para lá, a estranja branca como a cal da parede, corre para areia, outros oriundos das mesmas terras surgem, já com a pele em tom vermelho lagosta, a maralha da estranja, os camones, os didons e outros da mesma laia, começam a fugir para a fresquidão relativa das esplanadas, atiram-se com sofreguidão às “jolas”, pudera, aqui bebem dez pelo preço que emborcam duas, “lá-bas” nos frios ambientes de onde nos chegam, atrás de mim dois casais de ianques atiram-se a uma lagosta e uma garrafita de branco gelado, que custa mais de cem paus, - comem e bebem à grande, estes camones, ó sr. Francisco – confidencia-me o empregado que me traz mais uma cervejola, a esposa ligou-me a dizer que está atrasada, - ontem deixaram aqui 900 paus, e isso amigo pra eles na é nada – atira-me o homem, já velho conhecido de quase 20 décadas que levo a frequentar esta praia, mas não é deles que vos quero falar, mas de um louco.

Falo-vos de um tipo alto, esguio, vestido como um hippie daqueles dos anos 60, ou se calhar ainda pior que eles, com uma bandana de tecido vermelho, muito encardida, que usa para segurar as farripas aloiradas, cada vez mais brancas cada vez mais esparsas, porque o homem está quase tão careca como eu. Há esses mesmos 20 anos que o observo, mais aos seus comportamentos. Desta vez anda por ali, a apanhar as beatas, as latas, os copos de plástico mais as garrafas, atiradas para dentro dos vasos, dos canteiros ou espalhados pelo chão, a medida que vai apanhando o lixo deposita-o dentro das papeleiras e ou de um contentor ali próximo, durante bem mais de uma hora foi o que andou ali a fazer à esturra do inclemente Sol, suando as estopinhas proferia frases em holandês, que deve ser a sua origem, durante todo aquele tempo, centenas de pessoas passavam para cima e para baixo, a maioria nem olhava para aquele homem, outros riam-se, sentados na penumbra bebericando bebidas frescas, apontavam-lhe as maquinetas da moda e gravam vídeos ou tiravam fotografias.

Incrivelmente, ele o louco, estava ali a dar-nos a todos nós, os não loucos, uma enorme lição de lucidez, infelizmente a maioria de nós é demasiado pouco inteligente e não suficientemente louca para perceber essa enorme e gratuita lição de lucidez e de vida, uma lição sobre o que é a civilidade, o respeito pelo ambiente e pela vida em sociedade, não surpreendentemente, ele o louco é muito mais lúcido, que a maioria daquela maralha patética que por ali ciranda.

A minha esposa entretanto chegara, acompanhava-me agora numa “fresquinha”, lá foi mais uma e mais um cigarrito, ai os diabetes, entretanto eu sorria olhando o “louco”, - mas que raio estás tu a ver que te faz sorrir como um tonto – atira-me ela, expliquei-lhe que era aquele ali, um “maluco”, ela olhou, olhou para mim e disse-me, - “maluco!” Malucos somos nós a pagar preços destes, ao menos aquele ali está a fazer algo de útil – engoli em seco, indubitavelmente ele o “louco”, o “maluco”, era infinitamente muito mais lúcido e útil à roda da Vida, que a enorme maioria daquela turba patética, umbiguista e esbanjadora, eu incluído claro está.

Francisco Pereira

 

 

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