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A FALTA DE ÁGUA

18-02-2022 - Francisco Pereira

Corriam os saudosos, para mim pelo menos, anos oitenta do século passado, por essa altura recebia em casa uma revista dedicada à Ciência, área que me fascinou sempre, infelizmente não recordo o nome dessa revista, recordo porém que as questões da água, da sua escassez, dos períodos de seca cada vez mais prolongados, das possíveis alterações climáticas causadas pelos comportamentos humanos eram já temática recorrente, no entanto quase quarenta anos passados, ainda pouco ou nada se fez, Portugal vê confirmarem-se com cada vez maior acuidade aqueles maus augúrios.

É por isso que vejo com surpresa, alguns politiqueirotes medíocres da nossa praça, trazerem a terreiro soluções patetas, como por exemplo construir barragens, ou pior que isso relativizar o actual quadro de seca, como fez, recentemente, um antigo ministro da agricultura, uns e outros merecem o nosso mais veemente desprezo e repúdio, uns e outros demonstram serem uns patetas em especial o senhor antigo ministro que com a soberba típica da ralé politiqueira menosprezou a seca como sendo algo cíclico e natural, o que sendo verdade dado haver dessa realidade relatos desde o século XVI, ora acontece, isso não disse o senhor antigo ministro, que esse processo cíclico tem apresentado um ciclo cada vez mais curto, sendo os períodos de seca cada vez mais prolongados, bastaria a esse senhor antigo ministro, se realmente percebesse alguma coisa daquilo que fala, olhar para os caudais do Tejo, nestes últimos vinte anos para perceber que há algo de errado.

Por outro lado, a proposta de promover a construção de barragens como milagrosa panaceia para a seca, é reveladora de não apenas, uma atroz pobreza intelectual mas também revelador de uma profunda ignorância, as barragens tem problemas bem conhecidos, inclusivamente problemas que levam a enormes perdas de água, o que é um contra-senso pois se o objectivo destes reservatórios é reter água, propiciar a sua perda é um problema grave, existem também relatados, problemas com a qualidade da água armazenada, alterações nos microclimas, destruição de habitats de zonas húmidas e dos rios com a consequente perda de diversidade de fauna e flora, estes são apenas alguns dos problemas que a utilização de barragens para retenção de água possuem.

Uma outra questão, não despiciente, é o custo exorbitante deste tipo de investimentos, no entanto pessoalmente é minha convicção que a mais pertinente das questões que devem inviabilizar a construção deste tipo de mamarrachos cada vez mais inúteis, é uma simples questão de bom senso, pois se cada vez é menor a pluviosidade como pretendem as luminárias que preconizam estas construções encher as albufeiras, se calhar a balde.

As soluções, existem também há muito, claramente identificadas, tendo nos últimos anos surgido muitos avanços tecnológicos que permitem a primeira dessas soluções que é o tratamento e reaproveitamento das águas residuais, o caso de sucesso de Singapura, é dessa solução emblemático, podendo essa tecnologia ser reproduzida noutras latitudes. O aproveitamento da água das chuvas é outra solução, os beirais dos telhados deveriam possuir calhas para conduzir essas águas para reservatórios, para posterior tratamento e utilização doméstica. Tratar as águas residuais, combater a poluição da água com todos mos meios eficazes a que se possam recorrer, implementar uma fiscalização séria com coimas substanciais que sancionem os poluidores é uma outra urgência.

Combater o desperdício que ocorre nas redes domésticas deveria ser a prioridade das autarquias e o objecto dos seus investimentos ao invés de intenções rocambolescas e patetas sobre a construção de barragens, isso e investir em sistemas de rega modernos para os jardins, modernizar condutas e sistemas de distribuição das águas para consumo, aí é que deve estar o desiderato, ao invés das quimeras despesistas.

A dessalinização é uma outra das soluções que necessita de começar a equacionar-se com seriedade, ademais tendo Portugal a extensão costeira que se lhe conhece faz todo o sentido investir seriamente nessa solução, sem prejuízo de colocar a sílaba tónica no combate à poluição.

Depois será necessário implementar uma cultura de“literacia” da água, uma atitude de pedagogia que ensine as pessoas a respeitarem um elementos essenciais à vida na Terra, que ensine as pessoas a cuidarem e a utilizarem com máximo critério e rigor este escasso e essencial bem, do qual toda a vida na Terra depende, é essencial igualmente elaborar legislação que permita fiscalizar e efectivamente multar os poluidores bem como todos aqueles que esbanjam sem critério a cada vez mais preciosa água, sem essa fiscalização, vamos continuar a assistir à lavagem de carros na rua, às velhinhas a esbanjarem água a lavarem as pedras da calçada bem como aos desperdício generalizado perpetrado por gente irresponsável, diz um velho ditado que “a água a ninguém se nega”, estou em crer que precisamos de repensar este adágio, porque a continuar como está, temo bem que nas próximas décadas a coisa vá ser muito dramática.

Francisco Pereira

Para saber mais:

http://rdpc.uevora.pt/handle/10174/15357

https://www.earthlawcenter.org/blog-entries/2017/12/dams-climate-change-bad-news

https://www.yourarticlelibrary.com/essay/environmental-problems-caused-by-dams/42623

https://www.scientificamerican.com/article/how-do-dams-hurt-rivers/

https://britishdams.org/about-dams/dam-information/people-and-environment/

https://archive.internationalrivers.org/environmental-impacts-of-dams

https://www.uc.pt/fluc/depgeotur/publicacoes/Cadernos_Geografia/Numeros_publicados/CadGeo21_23/artigo07

https://www.ewa-online.eu/

https://www.worldwildlife.org/threats/water-scarcity

https://water.org/our-impact/water-crisis/

https://www.un.org/en/global-issues/water

https://www.worldvision.org/clean-water-news-stories/global-water-crisis-facts

https://www.britannica.com/explore/savingearth/water-crisis

https://www.worldwatercouncil.org/en/water-crisis

https://nationalgeographic.pt/natureza/actualidade/2450-secas-mais-longas-e-intensas-em-portugal

https://apambiente.pt/agua/comissao-permanente-da-seca

https://journals.openedition.org/factsreports/6341

https://www.scirp.org/html/97435_97435.htm

 

 

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