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Sobrequalificação mais um flagelo nacional

22-10-2021 - Francisco Pereira

Ao que parece, fazendo fé num estudo recente elaborado pelo ISCTE, Portugal é o segundo país europeu com o nível mais elevado de sobrequalificação dos trabalhadores. Na prática o que significa isto? Pois bem, isto significa na realidade duas coisas, uma, a mais óbvia diz-nos que uma percentagem que ronda os 23,6% dos trabalhadores portugueses, números de 2016, possuem qualificações académicas e profissionais mais elevadas do que as necessárias para o trabalho que desempenhavam, numa clara desadequação e num ainda mais claro desperdiçar de mão de obra qualificada, a outra realidade, muito mais gravosa e perversa, que o estudo não nos diz, mas digo-o eu, fundamentado nas décadas que levo de observação deste fenómeno, traduz uma utilização abusiva das qualificações do trabalhador por parte do empregador, aproveitando essas qualificações sem pagar o justo valor, exigindo o desempenho de funções qualificadas sem valorizar o trabalhador, o que muito aproveita quer ao sector público quer ao sector privado.

Os dados obtidos por este estudo provam inequivocamente que o investimento em educação, nomeadamente no ensino superior, constituiu uma parte importante na resolução da problemática da nossa endémica falta de qualificações, no entanto tal parece não se parece traduzir num efectivo aproveitamento desses recursos humanos de excelência que muitas vezes são desperdiçados neste quadro de sobrequalificação.

Falo com propriedade desta temática porque há décadas que convivo com esta realidade, imposta à minha pessoa. A dada altura do meu percurso profissional, resolvi investir na qualificação profissional e académica, seguindo a propaganda governeira, dos anos 90 do século passado, conclui uma licenciatura, em horário pós laboral, que muito me custou, quer em termos pessoais quer em termos monetários, mais tarde resolvi tirar um Mestrado que também conclui, pelo meio conclui ainda um curso profissional, concluindo igualmente duas certificações como Formador, mas daqui nada resultou, sou um funcionário público de uma autarquia, vegeto na carreira de assistente técnico, sendo que a única coisa que a autarquia fez foi aproveitar as minhas qualificações pagando-me o equivalente a porteiro de urinol, mas exigindo sempre mais, aqui impera a lógica do “se fazes uma vez logo se torna obrigação”, é por tudo isto que sei perfeitamente o que significa a sobrequalificação, infelizmente vivo-o diariamente.

Muita vontade de rir me dão os senhores do Poder, quando surgem nas televisões a encher a boca com a “qualificação”, “formação” e outros termos que adoram alardear, quando depois a realidade os desmente, mais, os do sector privado, seguindo justamente os exemplos que colhem no sector público, usam e abusam sistematicamente de subterfúgios para aproveitarem a mão de obra altamente qualificada pagando preços de uva mijona, prova disso são os estágios e outras palhaçadas inenarráveis da mesma igualha, promovidos por instituições públicas que mais não são que formas encapotadas de explorar de forma vil a mão de obra altamente qualificada, colocando-os numa sobrequalificação remunerátória, dado que desempenham na mesma funções altamente qualificadas mas são pagos como indiferenciados sem qualificação.

A realidade da sobrequalificação, atinge-nos, de outras formas que o estudo não revela, talvez porque o mesmo não se debruçou sobre essas questões de forma aturada, formas mais sórdidas e torpes que vão para além do trabalhador ter qualificações e estar a desempenhar funções de cacarácá, como por exemplo eu me encontro actualmente, a sobrequalificação esconde por vezes situações de assédio moral, serve de camuflagem para abusos por parte dos empregadores que conseguindo na mesma um trabalho de qualidade pagam salários miseráveis a essa mão de obra qualificada.

Esta é infelizmente mais uma estatística em que Portugal volta a ficar mal na fotografia, como noutros exemplos em que vegetamos na cauda da civilidade e do desenvolvimento, este é mais um triste exemplo de que entre a propaganda politiqueira e a realidade a distancia é muito grande.

Francisco Pereira

 

 

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