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Viagens na minha terra II: Crónica sobre o estado da arte

24-09-2021 - Rui Filipe Freitas

Ainda bastante longe de terras mouras, lá em cima onde o suor escravo de nuestros hermanos galegos fez medrar as fortunas do moscatel, depois do desabafo de um amigo sobre as vicissitudes da região, dei por mim a cismar — como de costume. Com uma imprensa cobarde, aldrabona e avençada e na total ausência de praguejadores do quilate de um Junqueiro ou de um Aquilino, praguejo eu para aqui que ninguém me ouve.

Há um século, a classe popular foi capaz de apoiar a implantação da República e aderir ao ideal republicano. Hoje, canaliza a revolta e a energia transformadora na contestação às mais elementares medidas profiláticas; mobiliza-se em apoio a tresloucados e pensa que insultar e ameaçar a segunda figura do Estado por razões que a razão desconhece é uma atitude assaz libertária.

Como dizia, há pouco mais de um século, tivemos um regicídio e uma mudança de regime que pôs fim à infame ditadura de João Franco e à não menos infame dinastia dos Braganças. De lá para cá, a populaça achou por bem rejeitar o socialismo e converteu-se numa massa bovina narcotizada, movida a cocktails de ansiolíticos, alienada pelos futebóis, sem amor-próprio, amorfa, sem rasgo e sem vontade própria. Tem dores imensas, mas não consegue identificar a origem nem localizar a dor. Nem os dados da OCDE que mostram que, em média, uma família pobre precisa de cinco gerações para chegar à classe média tem a virtude de a desentorpecer e de a levar a tomar consciência de classe. No meio desta tragédia encenada por hábeis trapaceiros, pontifica uma esquerda de colarinhos à Texas, fofinha e delicodoce, rendida a uma social-democracia com desiderato humanitário vago, aldrabona, sem método e de objeto difuso, capitaneada por um partido que dá pelo nome de partido socialista, mas que de socialista...

Quanto à pequena burguesia — mais estúpida e empobrecida — aí está ela: três séculos após o último suspiro sonoro e lancinante do velho deus semita, continua a conservar a carcaça pomposa de uma religiosidade hipócrita bordada a ouro contrafeito — o ouro do Brasil já acabou — pelas mãos diligentes do cinismo. Assim é a nossa classe média: uma classe de amanuenses, pau para toda a obra, moça de fretes, invejosa, indisciplinada, ignorante, fingida, provinciana, inculta, oportunista, medíocre, funcionária, sem autocrítica, soberba e incapaz de um ato de generosidade.

E os partidos? São invariavelmente dominados pelo arrivismo e pelo funcionalismo pervertido e liderados por bons vivants e dandies para quem o poder serve de afrodisíaco ou de acrescento fálico de grande utilidade na atividade cinegética, isto é — na caça à fêmea. Em suma, continuamos uma piolheira.

Assim vai o retângulo.

Rui Filipe Freitas

 

 

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