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ILUSÃO

17-09-2021 - Francisco Pereira

Vivemos numa permanente ilusão, a ilusão permite-nos ir vogando à tona da tormentosa tempestade que é a vida. A vida assemelha-se muitas das vezes a um tornado endemoninhado, uma espiral quantas vezes violenta de acontecimentos que se sucedem em torrentes que não bastas as vezes nos atiram murros potentes no estômago que nos arrasam e derrubam, que quase nos afogam em mágoas e lamentos, mas de outras vezes lá vem a ilusão salvadora, que nos traz coisas boas, pequenos prazeres de momentos fugazes que nos fornecem a providencial tábua de salvação.

Vamos arrastando os nossos dias, odiando a verdade, odiando o nosso quotidiano, que nos amargura, esse dia a dia de vela de moinho que se arrasta ao sabor de ventanias surreais que nos convidam ao ócio, a essa modorra deleitosa que nos faz sentir vivos, mesmo que saibamos que a cada segundo depois do primeiro choro estejamos verdadeiramente a morrer, ainda que passemos pela vida sempre a fugir a e negar a morte, como se essa coisa negra pestífera fosse apenas um truque de Orfeu, novamente a ilusão, que esconde a vida atrás do biombo da névoa do esquecimento.

É a ilusão que nos vai alimentando o ego desmedido que continua a pontuar em cada um de nós, ainda que muitos já o tenham domesticado, pois se há coisa odiosa são os egos exacerbados, que quase sempre conduzem a desgraças, muito se iludem os seres humanos com o ego, que se levam demasiado a sério, essa seriedade que os engana sempre que pode, deturpando, distorcendo muitas vezes de forma violenta a realidade construindo uma existência, assente desta feita em más ilusões que tomamos por reais, quando na verdade, nunca o serão, sendo apenas sombras fugidias da realidade que nos ilude.

A ilusão persegue-nos, nós tomados pelo pânico para lhe fugir perseguimos o tempo, queremos ter tempo, ganhar tempo, porque odiamos perder tempo, a ilusão tolda mais uma vez o nosso discernimento, onde entramos sem saber numa espiral continua não percebendo que o tempo não se pode ganhar e ou perder, mas temos sempre o tempo contado, contando que o tempo nos proteja, que ele aja a nosso favor, mas não, o malvado colabora com a ilusão, ilude-nos, passando sem se repetir, por isso criámos um modo de o tentar capturar, pinta-mo-lo, fotografa-mo-lo, filma-mo-lo, gravamos o som do tempo, todas essas tentativas servem para alimentar a nossa ilusão, construindo castelos etéreos que vamos construindo para nos alcandorarmos em altitudes que julgamos intangíveis e inatingíveis, assim iludidos, recordamos, vamos a banhos nas memórias, que nos revigoram as almas gastas pelo mesmo tempo que insistimos em recordar.

A fonte da memória parece inesgotável, não o é porém, deturpa a realidade e vai seguramente atraiçoar-nos, a memória toma conta de nós, fugindo ao tempo mas presa nele por filamentos invisíveis parecidos a teias que uma aranha intemporal vai tecendo afadigadamente sem querer saber de nós, e a cada volta que tece, cria uma ilusão nova com que a nossa mente ilude, ou tenta iludir o tempo, essa areia fina de grãos dourados que se nos escapa por entre a ampulheta da vida, muitas vezes sem sequer disso nos darmos conta iludidos que estamos com fama, glória e ou fortuna, esbanjamos o nosso ser em estúrdias, regabofes e orgiásticas manifestações de gula e ou de luxuria, a quem queremos enganar? Ao tempo, duvide-se que a esse ninguém engana, mesmo tendo inventado relógios e calendários, cronógrafos e cronómetros, pêndulos e até teorias que o dizem relativo, vivemos na ilusão.

Não fora essa ilusão recusaríamos o nascer, celebrando a vida a cada aniversário, ou celebrando a morte, creio que aqui se confundem as duas pois são as faces de um mesmo corpo bicéfalo da ilusão.

Celebremos pois essa ilusão, deitemos abaixo as amarras da mediocridade, dos egos e da mesquinhez, saibamos fruir dessa ilusão aproveitando o amanhecer, o dia e o por do Sol, celebrando o trinar dos pássaros ou o canto do grilo mais da cigarra, olhemos o girassol vaidoso, a rosa majestosa, mais a túlipa invernosa, invejemos a copa da árvore frondosa mais o sussurrar do regato correndo áspero pelas fragas intemporais, saibamos de novo apreciar o voo das rapaces, a corrida da esquiva lebre ou da manhosa raposa, respeitemos o Mundo, respeite-mo-nos, aprendamos a viver dignamente esta breve ilusão a que aprendemos a chamar Vida.

Francisco Pereira

 

 

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