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ELEIÇÃO AMERICANAS: TRUMP VS BIDEN

30-10-2020 - Neto Simões

  • O ano tem sido marcado pelo efeito da pandemia de Covid-19, nos equilíbrios socio-económicos e geopolíticos entre as nações, e tornou-se também num dos fatores que podem desequilibrar a balança no evento eleitoral de maior relevo deste ano.

A dimensão e danos da crise sanitária são ainda incertos mas terão pesada repercussão em quase todas as dimensões, desde a vida quotidiana, passando pela economia até à ordem internacional.

A pandemia tem ajudado a consolidar as forças autoritárias quando estas estão no poder. E a prazo, a Covid-19 poderá vir a corroer ainda mais a confiança popular nas instituições.

Neste contexto, as eleições presidenciais americanas poderão ser as de maior relevância das últimas décadas, capazes de influenciar não só a agenda interna dos EUA, mas também de suscitar debate internacional em algumas áreas de enorme relevo na agenda geopolítica internacional.

Acrescentam-se os temas de caráter mais social e político, como as tensões relacionadas com a discriminação racial ou a gestão das relações comerciais e diplomáticas com a China, que sofreram uma significativa deterioração desde o princípio da pandemia.

A vantagem de Biden pode vir a encurtar e muitos observadores colocam em cima da mesa a possibilidade de um cenário de impasse nas eleições presidenciais, o que poderá aumentar as tensões num ambiente, que politicamente já se encontra bastante polarizado.

Nos EUA, embora não apenas aí, a polarização política atirou a incompatibilidade ideológica partidária para um pico alarmante nestes anos de Trump. Foi acicatada e manipulada pelo trumpismo, mas não nasceu com o presidente americano. A grande questão é saber se há margem para diminuir a tensão caso Biden vença ou se a tendência polarizadora tender-se-á a agravar.

  • As eleições presidenciais americanas de 3 de Novembro não têm comparação com nenhumas outras. Pela primeira vez, um candidato - presidente em funções em busca da reeleição – ameaça não reconhecer pacificamente os resultados, colocando de parte a aceitação de uma derrota que parece ser o cenário mais provável.

Trump já o tinha feito em 2016, mas a situação agora é muito mais perigosa. Durante meses tem actuado de uma forma hostil, perversa e irresponsável, levando milhões de americanos a convencerem-se que o acto eleitoral foi fraudulento. E, mesmo que em Janeiro deixe o cargo, provavelmente deixará um clima politico deteriorado o que poderá propiciar fracturas graves no regime e na sociedade americana.

Trump corre atrás do prejuízo novamente. As sondagens refletem o ano devastador para a administração republicana. O posicionamento inicial relativamente à estratégia de combate à pandemia, o violento golpe no mercado de emprego (26 milhões de desempregados), e o despertar de tensões sociais relacionadas com a violência policial e a discriminação racial tiveram impacto negativo na popularidade do presidente dos EUA.

A manipulação das emoções, numa fase decisiva da campanha, promove não só o risco propositado em afundar as instituições numa disfuncionalidade como cria uma sensação de vazio com o objectivo de retomar o ciclo de atenção noticioso apenas em Trump.

Na sua lógica apenas interessa passar a ideia de invencibilidade, de um vírus derrotável sem vacina. E, pelo meio, retomou a ameaça da “extrema-esquerda” e procurou fazer de um vírus, que já matou mais de 200 mil americanos, uma irrelevância.

As sondagens refletem a conjugação de fatores que conduziram os democratas à liderança das eleições de Novembro. Neste momento, o candidato democrata Joe Biden segue destacado com uma vantagem de cerca de 10 pontos percentuais.

Acresce, que a taxa de aprovação está abaixo da média histórica de popularidade ostentada por presidentes que obtiveram a reeleição.

  • Joe Biden é por isso favorito à vitória, beneficiando da vontade maioritária do eleitorado, de travar um segundo mandato de um presidente que deixou a sociedade americana à imagem do que tem sido a sua Administração: um caos.

Mas o candidato democrata tem, até à confirmação do seu triunfo, vários desafios a vencer. Será que o facto de vir a ser, de longe, o presidente mais velho da história americana vai contar no julgamento do eleitorado?

A idade de Biden é um tema que não larga o candidato democrata. Mesmo tendo ganho o debate a um Trump em estilo touro enraivecido e sem respeito pelas regras. Joe não é brilhante. Não exala juventude. Não é eloquente. Nunca foi e isso não tem a ver com a idade. Poderá, até, vir a ser o primeiro presidente dos EUA que gagueja ligeiramente.

Mas a verdade é que, até agora pelo menos, não há evidência alguma que não esteja em condições físicas ou mentais de ser presidente. Passou pelo duro processo de primárias e ganhou – derrotando candidatos 30 ou 40 anos mais novos. Conseguirá Joe afastar dos eleitores o fantasma da idade avançada? A diferença de idades entre Trump e Biden é de apenas três anos.

O modo como está a decorrer o actual processo eleitoral nos EUA confirma a profunda crise ética que vive a humanidade, como resultado da atomização dos indivíduos e da degradação do diálogo social provocada pela revolução comunicacional em curso.

Não é de estranhar, que o debate político – parte do diálogo social – esteja a perder qualidade em todo o mundo. Essa é uma das razões da ascensão de líderes populistas ignorantes e autoritários. Trump é um desses líderes.

O seu primeiro debate com Joe Biden foi uma confirmação de que o diálogo de sentido único, visa intimidar e derrotar o adversário, através da gritaria, interrupções constantes, sem esquecer as inúmeras falsidades.

A estratégia de Trump e dos republicanos, em curso há meses, é a tentativa de criar um clima de suspeição no âmbito das eleições, questionando, sobretudo, o tradicional voto por correspondência. O objectivo, sem fundamento, é fazer acreditar os eleitores de um processo fraudulento para que o acto eleitoral possa decorrer com animosidade e servir de pretexto para uma longa batalha jurídica no Supremo Tribunal, caso o presidente não seja reeleito.

Mas na realidade é aterrador existirem vários mecanismos legais e constitucionais que podem permitir que Trump permaneça no cargo sem realmente ganhar na votação. As leis e a Constituição dos EUA são ambíguas sobre como resolver disputas do Colégio Eleitoral.

Por outro lado, aparentemente a campanha de Trump está em grandes dificuldades. A estratégia de minimizar a Covid-19 para focar na economia fracassou, transformando as eleições num plebiscito sobre a gestão da pandemia.

  • Desengane-se quem acha que esta longa corrida vai terminar na noite de 3 de novembro. Isso era dantes: quando a política americana produzir candidatos presidenciais sensatos e confiáveis. Donald Trump já afirmou que não vai aceitar pacificamente uma possível derrota.

Pode tentar uma declaração de vitória antecipada, ignorando os votos por correspondência (que deverão dar grande vantagem a Biden) e aproveitando a contagem parcial dos votos, que possivelmente indicarão ligeiro avanço a Trump.

O presidente não é a Comissão Eleitoral. Porém, Trump sabe que tem o poder da agitação das multidões. Se criar na base do seu eleitorado a convicção de ter havido uma conspiração fraudulenta – com os votos por correio -, os acontecimentos a partir da noite de 3 de novembro são imprevisíveis. Será o grande teste à resistência do sistema democrático americano.

Os EUA vão ter mesmo que mostrar que todas as suas instituições (Supremo, tribunais, Congresso e forças armadas) não enfraqueceram com quatro anos de trumpismo – e serão capazes de garantir o essencial: assegurar que quem vier a ganhar a eleição presidencial, depois de todos os votos devidamente contados, tomará posse a 20 de janeiro de 2021.

Pela primeira vez na história da democracia de referência do Mundo ocidental, não dá para afirmar com total certeza que tudo vai correr exatamente assim.

Escolher um egocêntrico com devaneios ditatoriais para presidente, como os eleitores americanos entenderam fazer há quatro anos, tem consequências. Muitos acharam que não seria bem assim. Mas está à vista que se enganaram. E muito.

O autor não segue o acordo ortográfico

José Manuel Neto Simões

Capitão-de-Fragata (R)

 

 

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