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Notícias e Opnião do Concelho de Almeirim de Portugal e do Mundo
 

A PARTEIRA DE ALPIARÇA

26-05-2023 - António Araújo

No ano de 1938, Hitler anexou a Áustria, começaram os processos de Moscovo e António Nunes levou um tabefe. Não terá sido um tabefe qualquer, ou um qualquer tabefe, pois que, em 2017, muitos e muitos anos volvidos, ao ser entrevistado com a bonita idade de 97 primaveras, aquilo que António mais recordou do essencial da sua vida foi aquele tabefe pré-Segunda Guerra (Mundial). Tabefe apanhado tinha ele 18 anos, tabefe aplicado por sua Mãe, por um singelo, decisivo e mais do que justificado motivo: António deslocara-se a Almeirim na companhia do Gabriel Fidalgo sem ter comunicado previamente tal facto à sua progenitora, que ficou danada. "Nunca mais esqueci do que a minha mãe me fez, porque não foi justo o que fez", disse António Nunes, 79 anos depois da ocorrência, a qual, a traços largos, ocorreu assim: uma noite, depois de jantar, António foi ter com a rapaziada amiga à Brasileira, um dos cafés mais frequentados de Alpiarça naquela época, a par do Central, propriedade de Gregório Joaquim Monteiro (é facto sabido de todos, mas aqui vai recordado: quer a Brasileira quer o Central ficavam na Rua Direita, quase junto ao Largo das Águias).

Foi na Brasileira que Gabriel Fidalgo lhe fez o convite fatal, quase delituoso, para irem ambos nessa noite a Almeirim. Perante o repto, António sugeriu a realização de uma cimeira bilateral, na qual impôs que regressassem antes da meia-noite. Como lembraria ele, oito décadas mais tarde, "Aceitaram-se as condições e partimos até Almeirim." A vida, porém, é madrasta e a História nem sempre justa: vá-se lá saber como e porquê, António e Gabriel regressaram a Alpiarça já passava um pouco da meia-noite. António foi para casa pé ante pé, pespegado e colado às paredes, silente que nem um rato, colocou a chave à porta, rodou-a na fechadura. Sobre o que se passou depois é sempre melhor o discurso directo e o testemunho em primeira mão. Palavra, portanto, à vítima, no seu lugar de fala:

"Mal tinha entrado...  Zás! Levei um tabefe da minha mãe, que nunca esqueci até hoje, e já tinha nessa altura 18 anos. Depois disse-me a minha mãe  levaste, não por entrares a esta hora, mas por teres saído da terra sem me teres avisado. Isto quer dizer que houve "uma alma caridosa" que foi a correr junto da minha mãe para denunciar o que tinha acontecido  Olhe que o seu filho mais o Gabriel Fidalgo foram para Almeirim sozinhos!... ter-lhe-ão coscuvilhado."

Até hoje não foi possível apurar quem terá sido o bufo denunciante de Gabriel e António, a voz coscuvilheira e maligna que, ao cabo e ao resto, esteve na origem da história - e de um tabefe que foi maternal, é certo, mas ainda assim aleijou. Talvez também não interesse, hoje é tudo gente morta, dela sobrando tão-só a memória ou memórias como esta, íntimas e irrelevantes, mas que outros, por coscuvilhice benigna, teimam em registar. Refiro-me, naturalmente, a algo de que já aqui falei e a que sempre regressarei: o extraordinário e a todos os títulos notável trabalho que, sob a égide de João Monteiro Serrano, a AIDIA - Associação Independente para o Desenvolvimento de Alpiarça tem levado a cabo para recuperar e fixar a memória das gentes da beira-Tejo. Em cooperação com o município de Alpiarça, a freguesia de Alpiarça e a Confraria Ibérica do Tejo a AIDIA edita uma colecção prodigiosa, os Cadernos Culturais, que já vão no número 50, ou mais, sempre a um excelente nível. Entre os temas abordados, os arroteadores do Vale da Lama da Atela; a cultura dos avieiros; a doçaria tradicional de Alpiarça; os moinhos e as azenhas de Mouriscas; a astronomia no Tejo; memórias de um calceteiro; a história de um emigrante, da Sertã ao Recife; as trovas de um pescador do Montijo; memórias do contrabando em terras alcoutenejas; a arte de frioleiras de Ivone Branco Mendes. Não é maravilhoso?

Na vida de António Nunes, além do tabefe materno, houve outros factos com relevância. Caso não saibam, foi ele a  fons et origo do melão Manuel António, cabe-lhe a paternidade de um dos ex-líbris do concelho. No  site da Câmara Municipal de Alpiarça, a vila apresenta-se, orgulhosa, como "Terra de Melão" e todos os anos, pelo mês de Julho, ocorre o "Festival do Melão" e, a ele associado, o "Concurso do Melhor Melão e Melancia de Alpiarça". No ano passado, foram a concurso nada menos do que 20 melões brancos, 12 melancias  sugarbaby e 11 melancias crimson sweet. Nas fotografias, tiradas no Pólo Etnoturístico da Casa dos Patudos, vemo-los todos lustrosos, aos melões e às melancias, encostados à parede, prestes a serem provados e degustados por um júri integrado pelo Dr. Luís Saldanha, da CNJ, pelo Dr. Igor Dias, da Escola Agrária de Santarém, pelo Eng. Luís Filipe Sousa, em representação da DRAP - Lisboa e Vale do Tejo (ou DRAPLVT), e por Jorge Costa, da Junta de Freguesia de Alpiarça.

As categorias em compita eram, a saber: "Melhor Melão Branco", "Melhor Melancia Crimson Sweet (riscada)" e "Melhor Melancia Sugar Baby (preta)", mas como os resultados da refrega só foram oficialmente anunciados a 26 de Agosto, no decorrer da ALPIAGRA, não consegui apurar quem terá sido o Mr. Melão e a Miss Melancia Alpiarça/2022. De todo o modo - e esse é o ponto que interessa -, por aqui se vê a importância do melão para a economia da região, devendo ainda acrescentar-se que o Mercado de Fruta do Carril é "considerado um dos mais um dos mais importantes mercados do país, não só pela quantidade, mas também pela qualidade dos melões e melancias que aqui se transacionam", informa o site  Reforma Agrária - Coma Bem, Viva Bem .

A vitalidade económica de uma terra, o emprego para muita gente, gerações e gerações de gente deliciada com os melões de Alpiarça, muito disto se deve a António Nunes, o tal do tabefe, razão que eloquentemente explica o valor do labor do professor João Monteiro Serrano, da Associação Independente para o Desenvolvimento de Alpiarça e, claro, dos seus Cadernos Culturais.

Nado e criado em Alpiarça, António Nunes foi estudar muito novo, aos 11 anos (!), para Santarém, mais precisamente para o Liceu Nacional Sá da Bandeira. Só vinha a casa aos fins-de-semana. "Naquele tempo quem ia estudar sabia que o ia fazer com muitas dificuldades da família, como foi o meu caso", recordou António aos 97 anos de vida. Trabalhou e estudou, ao fim de quatro anos de liceu passou para a Escola Agrícola, também em Santarém, onde, em 1940, concluiu o curso de regente agrícola. Depois seguiu-se a tropa, três anos nos quartéis, e, regressado a casa, nem sequer passou um mês quando António Nunes foi contactado por Rafael Duque, amigo de seu pai, que lhe disse para ir ter com ele ao Ministério. Recorda Nunes: "Notei que o Rafael Duque gostava muito de falar comigo ali em Vale de Cavalos, mas em Lisboa a conversa já foi outra. Mandou-me uma carta pelo contínuo para ir a uma repartição na Rua de São Bento, em Lisboa, e assim fiz". Têm os historiadores estudado muito o período do Estado Novo, escrutinado à lupa a vida e a política agrária do ministro Rafael Duque (sobre a qual Fernando Rosas escreveu em 1991 um importante ensaio nas páginas da revista  Análise Social, "Rafael Duque e a política agrária do Estado Novo, 1933-1944"), analisado a "campanha do trigo" e outras iniciativas, mas neste pequeno episódio sucedido com António Nunes está todo o retrato de um regime - ou talvez mesmo de um Portugal que continua a ser o nosso.

Munido da recomendação do ministro, foi António Nunes à Rua de São Bento, onde o engenheiro Francisco Aranha, após passar os olhos pela missiva de Duque, ficou um pouco agastado ("o Sr. Ministro há de pensar que eu tenho emprego para toda a gente"), mas lá conseguiu arranjar uma colocação em Chaves, por três meses. António lá foi então para Trás-os-Montes, onde acabou por ficar três anos, ao fim dos quais regressou a Lisboa, sendo aí colocado na Junta Nacional das Frutas. Nessa qualidade, correu o Ribatejo de uma ponta à outra, fazendo a inspecção dos meloais da lezíria. Entre 1943-1944 e dos anos 1950 em diante, a área dos meloeiros de Alpiarça ia de Vila Franca de Xira a Salvaterra de Magos, mas sempre na margem esquerda do Tejo, esclarece António, adiantando um pormenor importante, quiçá bairrista: ao tempo, nessa zona, só se viam meloeiros de Alpiarça, quase nenhuns de Almeirim. Nas décadas de 1940-50, os dois lados da Recta do Cabo enchiam-se de pargas de melões e melancias, vendidos por gente de Alpiarça, quase só de Alpiarça, e a fama dos melões de Almeirim baseou-se num erro ou numa manipulação da História.

"Almeirim nunca teve melões, porque por tradição e história sempre teve melancias" - diz-nos António Nunes. Ecuménico, advoga o seguinte Tordesilhas frutífero: para Alpiarça, a primazia nos melões ( Cucumis melo); para Almeirim, o reino das melancias ( Citrullus lanatus). Alcançada a harmonia, reponha-se a verdade histórica: "começou a ser criada a fama do que é conhecido como  melão de Almeirim, mas esta terra nunca teve melões, embora hoje queira fazer acreditar que teve. O que é verdade tem de ser dito e temos de ter frontalidade e honestidade para defender a verdade, porque foi assim que a minha mãe me educou. Só por isso valeu o valente tabefe que apanhei aos 18 anos, por ter ido a Almeirim de noite sem o conhecimento dela e ter chegado a casa pouco depois da meia-noite, como contei."

Por esta altura, já perguntais, e bem, pelos melões Manuel António. Vamos a eles: os melhores campos para meloal,  dixit António Nunes, eram as várzeas dos campos de Vila Franca, Benavente e Salvaterra. Quando chegava a época das sementeiras, os meloeiros de Alpiarça - não de Almeirim, note-se - mudavam-se de armas e bagagens para as terras da margem do Tejo, levando o que então chamavam a  tralha toda, desde enxadas a colchões, apetrechos de cozinha, os cães e os gatos da casa. Acampados em barracas, chegavam a lá viver uns seis meses, imagine-se.

Um dia, nos idos de 40, António foi até ao Alentejo a fiscalizar a fruta e, por bandas da Amareleja, deu com uns melões estupendos. Pediu ao produtor se lhe arranjava umas sementes, o outro disse que tinha de as ir buscar a Espanha, fez-se negócio e António retornou a Alpiarça todo contente. Passaram-se então semanas, meses, e sementes nada. António sentiu-se defraudado. Um belo dia, porém, recebeu senha para ir buscar uma encomenda à estação dos caminhos-de-ferro. Era o saco das sementes, que levou para Santarém. Tempos depois, no Grémio da Lavoura de Alpiarça, um meloeiro de nome Manuel António queixou-se das fracas colheitas e António lembrou-se das sementes de Espanha, vendeu-lhas. Assim nasceu uma variedade assaz singular, fresca e dulcíssima, a que Manuel António, com orgulho justificado, deu o seu próprio nome,  melões Manuel António. Foram exportados aos quilos, às toneladas, para o país-irmão do Brasil, para a exigente Inglaterra, que impunha melões calibrados, todos de um quilo, não mais. Dinheiro, empregos, uma vida melhor para muita gente, graças a António Nunes, que por esse tempo já fora colocado noutras paragens, terras da Beira Alta, à zona do Bravo de Esmolfe.

António Nunes era filho de uma parteira, a tal que o brindou com um tabefe, e irmão de outra parteira, Noémia Domingos Nunes de Carvalho. A vida de Noémia é tão ou mais interessante do que a dele, tendo ambas um denominador comum: o trabalho. Noémia ambicionava estudar, mas, por falta de recursos paternos, só conseguiu fazê-lo mais tarde do que o seu irmão, terminando o curso com 23 anos. Em 2016, quando foi entrevistada para o Caderno Cultural nº 48, intitulado justamente  A Parteira de Alpiarça. Memórias de Noémia Domingos Nunes Coelho, tinha 93 anos e nem sei se ainda é viva, mas sei que guardou para sempre, com enorme orgulho, a Carta de Curso de Parteira, exarada em 14 de Agosto de 1946 pelo Magnífico Reitor da Universidade de Coimbra, Professor Maximino José de Morais Correia. Em Alpiarça e terras limítrofes, fez nascer, durante décadas, muita e muita gente, e num caderninho que tinha chegou a apontar o nome de mais de 100 bebés por si dados à luz.

Chamada de dia ou noite, sem horários nem descanso, nunca sabendo quando terminariam os trabalhosos  trabalhos de parto, corria aos casebres palafitas no leito do Tejo, partilhava a vida anfíbia dos avieiros no Patacão de Cima, Casal do Leão, dos pescadores do Touco, da Vala Real, e das suas mulheres, as "peixeiras", a quem chegou a arranjar colchões para estarem deitadas para receber, de três em três horas, injecções de penicilina, a prevenir infecções. Viajava de burro, numa carroça, mas, quando chegava à beira-Tejo, os maridos das parturientes iam buscá-la de barco. Então, viajava pelas águas, às vezes noite dentro, cheia de medo. Ameaçou muitas mães de que não mais regressaria ali enquanto elas teimassem em ter os filhos naquelas palhotas, ao invés de irem para a Misericórdia de Alpiarça. "Foi assim que as habituei, mas admito que foi dificílimo. Elas não queriam sair da casa delas nem por nada, de maneira nenhuma". Difíceis foram também os seus anos de juventude: "foram tempos complicados porque tive de estudar e aplicar-me muito para poder chegar onde cheguei. Não foi fácil, porque precisei de trabalhar e de estudar muito. No entanto, no final, concluí que estudei e trabalhei, mas vi o resultado positivo de tudo, pelo que valeram os sacrifícios", disse a parteira Noémia, do alto dos seus 93 anos.

Quando João Monteiro Serrano a entrevistou, já se encontrava no Centro da Fundação José Relvas, onde era visitada por gente que fizera nascer e que, passados tantos e tantos anos, ia lá agradecer-lhe. Recordava com saudade os médicos que conheceu, o Dr. Neves, o Dr. Romão, o Dr. Dias Pereira, que em Lisboa abrira consultório na Praça do Chile, e, na Misericórdia de Alpiarça, o Dr. Lagoa, ou seja, Alfredo Duarte Lagoa, notário e proprietário, o primeiro provedor daquela instituição. No livro das suas memórias, há fotografias, muitas, inclusive dela vestida de noiva, no seu casamento com Manuel Henriques Coelho, em 1947 ("Namorámos e viemos a casar. Gostámos sempre bastante um do outro e fomos felizes"), e dos dois a dançar nos bailes do Enterro do Galo, ou no baile quando o Águias se despediu da sua antiga sede. Por sorte ou engenho, das muitas crianças que fez nascer, nenhuma lhe morreu nos braços. No final da vida, afirmou tão-só: "Tudo isto se passou, nada foi fácil para mim, mas foi uma profissão que eu abracei e gostei muito do que fiz. Por ter gostado tanto da minha profissão de parteira, abracei-a com todas as minhas forças."

Na mesma semana em que li as memórias de Noémia (e, já agora, do seu irmão António, o pai dos melões lendários), li também a biografia de Pedro Luz, empresário da noite e não só, escrita pela sua antiga namorada, a advogada Rita Delgado ( Pedro Luz. Um Homem, Quatro Vidas, ed. Zero a Oito, 2022). À primeira, à segunda e à terceira vista, nada por nada aproxima o fundador e ex-proprietário do Alcântara Café e da discoteca Alcântara Mar daquela parteira alpiarcense, podendo até dizer-se que um e outro pertencem a planetas ou galáxias diferentes: ela, uma mulher humilde, apegada à terra e ao povo, com uma profissão normal, mas mui nobre; ele, um gato cosmopolita, terrivelmente narciso, vivendo num mundo de frivolidade e luxo. O "homem mais bem vestido de Portugal", como o define a sua embevecida e inconfidente biógrafa, viaja sempre, nem que seja para um simples fim-de-semana, na companhia de duas malas contendo várias e várias camisas, impecavelmente dobradas nas respectivas caixas, para não amarrotarem, diversos pares de sapatos, múltiplos fatos,  écharpes e chapéus estilosos.

Se no livro de Noémia vemos fotografias dos miseráveis lacustres da beira-Tejo, de bailaricos de Entrudo ou de piqueniques na Nazaré dos marretas, na biografia de Pedro temos uma sucessão de imagens da noite, coloridas e feéricas, com celebridades sempre felizes, de gengivas a sorrir para a câmara. Desfile dos nossos famosos: a socialite Lili Caneças; António Mexia, artista de variedades, ora arguido por corrupção activa; Ana Salazar e Manuel Alves, malta dos trapos; as aves canoras Luís Represas e Paulo Gonzo; Margarida Rebelo Pinto, magérrima mulher das letras, entre outros boémios e noctívagos de várias origens e obscuras proveniências. O biografado, esse, vai passeando o seu charme por ambientes internacionais absolutamente previsíveis - Ibiza, Marraquexe, Saint-Tropez, Nova Iorque -, sendo caso para dizer que alguém que tanto se gaba da sua criatividade e do seu arrojo acaba, no fim de contas, por seguir uma pauta bem conformista, limitando-se a cumprir à risca aquilo que aparece nas revistas de moda e "tendências", das quais, segundo confessa, jamais pode prescindir. Publicar um livro destes, e ademais com estrondo, ao invés de mantê-lo circunscrito a um núcleo reduzido de amigos, é um singular e quase obsceno exercício de desnudamento, pois, através dele, ficamos a saber, por exemplo, todos os pormenores do início do romance entre biógrafa e biografado, os nomes dos muitos empregados de Pedro Luz ou os interiores da sua casa no Restelo, exibidos em visita guiada de Rita Delgado, que no seu deslumbramento não nos poupa sequer o  name dropping decorativo: "Entrando na sala, temos uma  barcelonas cor de caramelo, rodeadas de uma Bubble, de uma Kiss, da Felt e da Joe Glove (...) uma mesa rectangular em mogno estilo  art nouveau, rodeada por Tulips e Eames Chairs brancas, um lustre moderno preto e branco de Veneza e, na parede, um único quadro de sépia (sic) de um homem imponente, com o tronco definido e uma mão que atravessa (?), como se fosse um desenho romano interpretado e executado agora."

Não podendo ir à cerimónia-festa do lançamento da obra, que teve lugar em Setembro passado num dos hotéis de Pedro Luz, o presidente da CML, Eng. Carlos Moedas, fez questão de enviar uma extensa mensagem-vídeo, na qual classificou o homenageado como "um dos símbolos da chamada movida lisboeta que trouxe o ar fresco da modernidade a espaços icónicos como o Plateau ou o Alcântara-Mar". A concluir, em remate à trave: "O Pedro é a personificação de uma capital cosmopolita que é a minha, daquela Lisboa que não tem de pedir licença a Paris para ser a nossa cidade-luz."

Importa, no entanto, despirmo-nos de preconceitos intelectualistas, de invejas e mesquinhezes. Se formos capazes disso, deveremos olhar este "homem de cultura" (Luís Marques Mendes) ou mesmo este "grande homem de cultura" (José Miguel Júdice), para além do modo como ele se apresenta e representa perante si próprio e perante o mundo. Apesar de não gostar muito de falar das suas origens, Pedro Luz é um  self-made man que alcançou inquestionável sucesso nos sucessivos e muito competitivos ramos de negócio em que operou - roupas, croissanterias e pronto-a-comer, diversão nocturna e agora hotelaria -, o que, não fazendo dele um "caso de estudo", mostra, ainda assim, a importância de certas coisas. Nas viagens que faz, e di-lo Rita Delgado, tudo é milimetricamente preparado para observar o que de melhor se faz "lá fora", para acompanhar e estar a par das tendências e dos gostos, das evoluções dos modismos. Por trás daquele insuportável triunfalismo de vencedor, parece existir, afinal, uma enorme humildade, o querer aprender com os outros. E sobretudo, acima de tudo, há muito e muito trabalho, um labor incessante, tal qual o de Noémia Carvalho, a parteira de Alpiarça (um dos capítulos da biografia de Luz intitula-se precisamente "Trabalho, mais trabalho e trabalho.")

Entre um e outro há um Portugal de permeio e, de facto, na abissal diferença entre Noémia e Pedro estão também as fundas transformações que o país foi sofrendo ao longo de quase um século. Mudanças que afectaram o próprio valor do trabalho e que, fruto das vicissitudes do mundo, mas também de males internos, estão retirando o propósito àqueles que agora nascem. Nos tempos de Noémia e Pedro, trabalhava-se com um sentido, com um objectivo de vida, mais ou menos realista, mais ou menos alcançável. Agora, não têm os jovens qualquer incentivo e motivo para labutar e suar, pois ignoram se tudo quanto trabalham ou trabalharem será um dia recompensado, mesmo nos termos das suas aspirações mais modestas: uma casa para morar, emprego com salário digno, um futuro acutelado. Não admira, por isso, que muitos apenas vivam para o dia-a-dia, que só queiram divertir-se nas discotecas do Pedro ou de quem hoje lhe sucede. Ter filhos, para as Noémias-parteiras de agora, é coisa que nem pensar. Para que todos meditem: em geral, os jovens da actualidade têm hoje menos esperança de futuro do que os jovens de há 30, 40 ou 50 anos. É esta a verdade autêntica, como os melões de Alpiarça.

Para a minha Mãe, uma mulher de trabalho

Historiador. Escreve de acordo com a antiga ortografia.

Fonte: Diário de Noticias

 

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