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DOSSIERS
 
O FIM DA DIPLOMACIA DO DÓLAR?
Autor: Barry Eichengreen

20-10-2017

WASHINGTON, DC – Mark Twain nunca chegou realmente a dizer “As notícias sobre a minha morte são manifestamente exageradas”. Mas a falsa citação é demasiado deliciosa para morrer de morte natural. E nunca a ideia que lhe subjaz foi mais relevante do que nas discussões sobre o papel internacional do dólar.

Desde a década de 1960 que os pânditas têm lido os últimos sacramentos à dominação global do dólar – ou seja, há já mais de meio século. Isto pode comprovar-se pelas ocorrências da frase “fim do dólar” em todas as publicações de língua inglesa catalogadas pelo Google.

A frequência destas citações, ajustada pelo número de páginas impressas por ano, deu um primeiro salto em 1969, após o colapso daLondon Gold Pool, um mecanismo em que cooperaram oito bancos centrais para apoiar a indexação do dólar ao ouro. O uso da frase disparou na década de 1970, após o colapso do sistema de Bretton Woods, de que o dólar era o elemento-chave, e em resposta à elevada inflação que acompanhou as presidências de Richard Nixon, Gerald Ford e Jimmy Carter na década de 1970.

Mas mesmo esse pico foi ultrapassado pelo aumento de citações, e pelas preocupações correspondentes sobre o dólar a partir de 2001, reflectindo o choque dos ataques terroristas nesse mês de Setembro, o rápido crescimento do défice comercial dos EUA, e finalmente a crise financeira global de 2008.

E contudo, através de tudo isto, o papel internacional do dólar resistiu. Como eu e os meus co-autores mostramos num novo livro, a proporção de dólares nas reservas de moeda estrangeira detidas por bancos centrais e governos em todo o mundo praticamente não se alterou face a estes eventos. A moeda americana continua a ser a moeda dominante nas transacções dos mercados cambiais. Ainda é a unidade em que se expressa o preço do petróleo, e este é comercializado em todo o mundo, não obstante as queixas dos líderes Venezuelanos sobre a “tirania do dólar”.

Para consternação de muitos operadores cambiais, o valor do dólar flutua consideravelmente, como mostraram a sua ascensão, queda e recuperação no decurso do último ano. Mas isto faz pouco para erodir a atractividade do dólar nos mercados internacionais.

Os bancos centrais ainda detêm obrigações do Tesouro dos EUA porque o mercado para estas é o mercado financeiro com maior liquidez em todo o mundo. E as obrigações do Tesouro são seguras: o governo federal não se tem atrasado nos seus pagamentos desde a desastrosa Guerra de 1812.

Além disso, as ligações diplomáticas e militares dos EUA encorajam os aliados da América a deterem dólares. Os estados com arsenal nuclear próprio detêm menos dólares que os países que dependem dos EUA para as suas necessidades de segurança. A participação numa aliança militar com um país emissor de moeda de reserva aumenta a proporção das reservas cambiais do parceiro, detidas nessa moeda, em cerca de 30 pontos percentuais. A evidência demonstra, portanto, que a proporção das reservas detidas em dólares cairia sensivelmente na ausência deste efeito.

Esta ligação subestimada entre as alianças geopolíticas e a moeda internacional reflecte uma combinação de factores. Os governos têm razões para estar confiantes de que o país emissor de moeda de reserva encarará o serviço da dívida detida pelos seus aliados com a maior prioridade; por sua vez, esses aliados, ao deterem as suas responsabilidades, podem ajudar a reduzir os custos de endividamento do emissor.

Aqui, e não em qualquer outro imbróglio sobre o tecto da dívida federal no próximo mês de Dezembro, é onde reside a verdadeira ameaça para o domínio internacional do dólar. Como  disse um responsável anónimo do Departamento de Estado dos EUA, o presidente Donald Trump “não parece estar preocupado com alianças, e portanto não se preocupa com a diplomacia.”

Pensa-se que a Coreia do Sul e o Japão detêm cerca de 80% das suas reservas internacionais em dólares. Podemos imaginar que o comportamento financeiro destes e de outros países se alteraria grandemente, com implicações adversas para a taxa de câmbio do dólar e para os custos de endividamento dos EUA, caso fracassassem as alianças militares próximas entre a América e os seus aliados.

Nem é difícil imaginar como este fracasso poderia ocorrer. O presidente Donald Trump encurralou-se num canto estratégico: precisa de uma concessão da Coreia do Norte na questão das armas nucleares, para poder salvaguardar a sua posição junto das suas bases, para não falar da comunidade global. E apesar de toda a retórica e postura agressiva de Trump, a única maneira possível de assegurar uma tal concessão é através da negociação. Ironicamente, o resultado mais plausível desse processo será um regime de inspecções não muito diferente do negociado entre a administração de Barack Obama e o Irão.

Para chegar aí, a administração Trump deverá oferecer algo em troca. O instrumento negocial mais óbvio que poderia ser oferecido ao regime norte-coreano, para que este se sentisse mais seguro, seria uma redução nos contingentes militares dos EUA na península coreana, e na Ásia em geral. Com isso, a garantia de segurança dos EUA para a Ásia enfraqueceria, proporcionando por sua vez à China uma oportunidade para ocupar essa brecha geopolítica.

E para onde a China for em termos geopolíticos, a sua moeda, o renminbi, segui-la-á certamente.

Barry Eichengreen

Barry Eichengreen é professor de Economia na Universidade da Califórnia, Berkeley; Professor de História e Instituições da Universidade de Cambridge American; e ex-conselheiro sénior de políticas do Fundo Monetário Internacional. Seu último livro é Hall of Mirrors: A Grande Depressão, a grande recessão, e os usos - e abusos - de História.

 

 

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