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Com as mudanças climáticas, a Terra já perde componentes críticos da biosfera
Autor: Dahr Jamail

11-05-2018

'Em 2050 viveremos em um planeta dramaticamente diferente (...) teremos dezenas - se não centenas - de milhões de refugiados do clima, por causa do aumento do nível do mar e de conflitos causados pela falta de comida e água'.

Há algumas semanas, fiz uma apresentação sobre mudanças climáticas antropogénicas em uma grande conferência sobre sustentabilidade em Chico, Califórnia. Durante a sessão de perguntas e respostas após minha fala, um estudante me perguntou como seria o mundo em 2050. A pergunta dele me paralisou. Tive que fazer uma pausa e respirar fundo para me preparar emocionalmente para o que ia dizer a ele.

Eis a essência do que eu disse: baseado em anos de pesquisa para o meu próximo livro,   The End of Ice   (O Fim do Gelo), junto com meu trabalho compilando relatórios mensais sobre mudanças climáticas nos últimos quatro anos, sei que em 2050 viveremos em um planeta dramaticamente diferente. Acredito que teremos dezenas – se não centenas – de milhões de refugiados do clima, por causa do aumento do nível do mar e de conflitos causados pela falta de comida e água. O que hoje chamamos de eventos climáticos extremos (cheias e inundações massivas, secas, furacões) terá, há muito tempo, se tornado a norma. Nos EUA, o cultivo de alimentos no centro-oeste e no vale central da Califórnia será extremamente difícil, se não quase impossível, devido à mudança nos padrões climáticos de chuvas e secas. Alguns trechos do planeta, incluindo os estados do Golfo, no Oriente Médio, e partes do sudoeste dos EUA, serão praticamente inabitáveis simplesmente por serem quentes demais. A Groenlândia e a Antártida estarão experimentando derretimentos drasticamente avançados, e a maioria das geleiras nos 48 estados contíguos dos EUA já terá deixado de existir. E dado que estamos oficialmente já em meio ao sexto evento de extinção em massa do planeta, desencadeado pelo homem, a aniquilação biológica que o acompanhará está acontecendo em passo acelerado.

O retrato pode parecer exagerado. Mas para entender que este é o nosso futuro, basta olhar para o que já está acontecendo ao redor do planeta.

No início de março, o gelo do Ártico bateu recordes de baixa para a época do ano. Junto com temperaturas incrivelmente quentes para a região (que os cientistas chamaram de "algo muito, muito louco"), os eventos ocorrendo no Ártico têm deixado os pesquisadores coçando as cabeças sobre as mudanças climáticas antropogénicas.

A biosfera está em convulsão.

As mudanças climáticas antropogénicas não controladas – que provavelmente vão perdurar, já que os governos (particularmente o dos Estados Unidos) não estão preparando as medidas drásticas de mitigação que poderiam causar algum impacto – vão degradar a pesca global nos próximos séculos de forma dramática, e podem reduzir a vida vegetal oceânica total em um milênio, de acordo com um estudo recente. O estudo também observou que essas mudanças só poderão ser revertidas se e quando o clima voltar a esfriar.

De acordo com  um estudo recente, o aquecimento causado pelos seres humanos na Terra provavelmente já é suficiente para derreter mais de um terço de todas as geleiras do mundo fora da Antártida e da Groenlândia, independentemente dos esforços em curso para reduzir as emissões de combustíveis fósseis. O estudo comparou o intervalo entre os aumentos da temperatura global e o recuo das geleiras e encontrou uma resposta relativamente lenta das geleiras em relação ao aquecimento do planeta. Os pesquisadores observam que vai será preciso esperar até 2100, pelo menos, para notar qualquer benefício resultante de esforços sérios de mitigação feitos nas próximas décadas – supondo que esses esforços sejam realmente feitos. Um dos cientistas envolvidos no estudo disse ao Carbon Brief que essa perda das geleiras já está "embutida" no sistema e havia sido negligenciada, o que significa, basicamente, que "caminhamos realmente para a destruição de muitas das paisagens montanhosas do planeta".

Um relatório publicado recentemente pelo World Wildlife Fund prevê perdas catastróficas nas florestas do mundo: cerca de 60% das plantas e metade de todos os animais devem ter desaparecido em 2100 se as temperaturas aumentarem mais de 1,5 graus Celsius (1,5°C). O consenso científico afirma que o aumento de 1,5°C é um dado; na realidade, alguns cientistas notáveis acreditam que, dados os atuais compromissos nacionais, o mais provável é um aumento de 3,2°C até 2100. Se as emissões permanecerem inalteradas, que é a trajetória atual, a previsão é um aumento de 4,5°C. Vale notar que as gigantes do petróleo BP e Shell preparam-se para um aquecimento de 5°C até 2050.

Conhecer toda essa informação é necessário se quisermos ver o mundo com clareza e viver nossas vidas de forma consequente.

Terra

O Banco Mundial alertou recentemente que, se uma intervenção dramática nas mudanças climáticas antropogénicas não ocorrer, 140 milhões de habitantes de três regiões da Terra (África Subsaariana, Sul da Ásia e América Latina) terão se tornado refugiados até 2050.

Um exemplo de um dos fatores capazes de impulsionar esse movimento em massa pode ser encontrado na Califórnia, onde um relatório recente citando quase 90 estudos diferentes descobriu que o aumento da temperatura alteraria o local de cultivo das principais plantações no estado. Lembrando que a Califórnia produz aproximadamente dois terços de muitas espécies de frutas e legumes consumidos nos EUA, o relatório observa que as mudanças climáticas poderiam reduzir em até 40% a produção de algumas das culturas do estado até 2050.

Em Vermont, o aumento da temperatura, especialmente no inverno, está causando eventos climáticos extremos e chuvas imprevisíveis que, como especialistas alertaram recentemente, tornam as florestas do estado particularmente vulneráveis às mudanças climáticas. Florestas boreais e populações de alces serão particularmente atingidas, alertou o estudo.

As regiões mais setentrionais do mundo não são poupadas do clima extremo. O Silo Global de Sementes de Svalbard (Svalbard Global Seed Vault), conhecido como Cofre do Fim do Mundo, foi criado para proteger as sementes do mundo no caso de impactos cataclísmicos climáticos ou guerra nuclear, o que ocorrer primeiro. Preocupantemente, está precisando ser reformado e adaptado, graças às mudanças climáticas. A Noruega, que construiu e mantém o cofre, precisa investir US $ 13 milhões para modernizar o cofre, para criar espaço para mais sementes e torna-lo mais resiliente, devido a inundações ocorridas no ano passado, que levaram o governo norueguês a considerar a ampliação e as melhorias, que já foram aprovadas.

Também sobram más notícias para as espécies animais da Terra. Um estudo publicado recentemente na revista Nature Climate Change mostrou que os pinguins-reis da Antártida podem estar extintos até 2100, devido principalmente aos impactos das mudanças climáticas sobre a pesca.

Na Flórida, pesquisas revelaram que quase todas as tartarugas marinhas que vêm nascendo são fêmeas, devido às temperaturas mais altas. Obviamente, se a tendência continuar, o que provavelmente acontecerá, as tartarugas marinhas desaparecerão na Flórida.

Enquanto isso, na Europa, os autores de um relatório recente do Museu Nacional de História Natural da França e do Centro Nacional de Pesquisa Científica (Centre National de la Recherche Scientifique – CNRS) mostraram um declínio "catastrófico" nas populações de aves da França. A tendência sinaliza a possibilidade de a terra agrícola da Europa se desertificar, situação que ameaçaria todos os seres humanos. Os cientistas alertaram para uma crise mais ampla de biodiversidade – ou da falta dela – em todo o continente, causada pelos impactos das mudanças climáticas e pelo uso de agrotóxicos. O relatório vem na esteira da notícia do declínio em 76% da quantidade de insetos voadores na Alemanha nos últimos 27 anos.

Água

Como acontece com frequência na primavera, as áreas em que o planeta é coberto de água tornam mais evidentes os impactos das mudanças climáticas antropogénicas.

A extensa seca do inverno nos Estados Unidos, do Kansas, Oklahoma e Missouri às Dakotas, Texas e Califórnia, tem deixado muitos agricultores preocupados com a hipótese de este ano repetir 2012, a pior seca dos EUA desde o Dust Bowl.   A seca do inverno de 2018 já é pior do que a de 2012.

O problema não para nesses estados. No Colorado, no momento em que escrevo este texto, a neve precisaria cair a uma taxa 200% acima da média do estado até o fim de abril para que a camada de neve alcançasse o nível normal. Com a aproximação do verão, os gestores da água observam os reservatórios com cautela.

O Colorado não é uma anomalia. A acumulação de gelo em todo o oeste dos EUA tem sido dramaticamente menor do que há um século. Um estudo recente mostrou que a média de neve no oeste diminuiu em quase um terço desde 1915. Isso equivaleria à drenagem permanente do lago Mead, o maior reservatório artificial dos Estados Unidos.

Mudanças nos padrões climáticos e temperaturas mais quentes durante todo o ano preocupam cientistas no oeste do Canadá, que consideram a possibilidade de falta d’água no futuro – problema que ninguém associaria àquele país. Em 2017, por exemplo, houve uma quantidade recorde de queda de neve em uma região, mas mesmo toda a neve não foi suficiente para evitar a seca na parte sul das planícies logo abaixo.  

As mudanças climáticas ali também significam que a acumulação de neve derrete mais rápido e mais cedo do que o normal, o que significa que a água está descendo mais rapidamente pelas bacias fluviais e deixando-as secas antes do fim do verão.

Do outro lado do mundo, a Nova Zelândia vive preocupações semelhantes. Seus alpes se tornaram incrivelmente estéreis, e uma recente pesquisa aérea mostra como a perda de neve está sendo agora considerada "extrema".

Um relatório da ONU sobre o estado da água no mundo, recentemente divulgado, alerta que mais de cinco bilhões de pessoas poderão sofrer com a escassez de água até 2050, em grande parte devido às mudanças climáticas e à demanda crescente.

Além disso, eventos climáticos extremos, como grandes enchentes e chuvas extremas, aumentaram mais de 50% somente nesta década, e hoje ocorrem com frequência quatro vezes maior do que em 1980, segundo um artigo recente.

Enquanto isso, o nível do mar continua a subir. Relatório da Administração Oceânica e Atmosférica Nacional (NOAA) alerta que o aumento do nível do mar vai tornar mais graves, e rapidamente, as inundações que já ocorrem nas cidades costeiras dos EUA. O relatório alertou que em 2100 as inundações serão diárias em algumas cidades.

Há ainda outro estudo recente mostrando que os lagos da camada de gelo da Groenlândia estão se expandindo cada vez mais para o interior, ameaçando acelerar o fluxo do gelo uma vez que são drenados para o chão glacial.

Na Antártida, as notícias não são melhores. A ausência de gelo marinho perto do continente nas últimas seis semanas (até o momento em que escrevo) preocupa profundamente os cientistas que realizam pesquisas no local.

Além de prestar atenção às grandes mudanças continentais, é importante notar os impactos das mudanças climáticas no nível dos micro-organismos. Um relatório recente  mostrou que o excesso de dióxido de carbono (CO2) afeta a saúde de microrganismos críticos nos oceanos, o que poderia minar a base de cadeias alimentares marinhas vitais. Isso acontece em grande parte devido à acidificação do oceano causada pelas mudanças climáticas antropogénicas.

Fogo

Graças ao baixo acúmulo de neve em grande parte do oeste dos Estados Unidos, espera-se que este verão seja novamente de incêndios acima da média em grande parte do país. Como a acumulação de neve funciona como uma fonte de água durante a maior parte do verão, quando temperaturas mais elevadas fazem com que aquela neve derreta mais rápido do que o normal, o resultado é um clima mais seco.

Enquanto isso, na Austrália, mais de 70 casas e prédios foram destruídos em um vertiginoso incêndio florestal em New South Wales, enquanto outros incêndios separados destruíram 18 propriedades em Victoria. As autoridades locais descreveram os incêndios como os piores da temporada de verão da Austrália até aquele momento.

Como sempre é o caso de eventos climáticos extremos, nenhum desses incêndios pode ser atribuído exclusivamente às mudanças climáticas antropogénicas. Os impactos da perturbação climática são, no entanto, um fator chave para a frequência com que ocorrem, bem como para sua intensidade.

Ar

Na Austrália, um novo estudo revela que a onda de calor recorde do país em 2012 foi responsável pela destruição de aproximadamente mil km2 de campos de ervas marinhas, que atuam como repositório de CO2. Calcula-se que com a destruição dos campos tenham sido liberadas cerca de nove milhões de toneladas de CO2 na atmosfera.

A vizinha Nova Zelândia viveu, por sua vez, seu verão mais quente no ano passado. As temperaturas normais foram definitivamente ultrapassadas, marcando chocantes de 2,1°C acima da média dos últimos 35 anos.

Nos EUA, dados do Serviço Geológico dos EUA (US Geological Service) revelaram que a primavera chegou muito antes do normal em grande parte do país, um indicador claro de como as mudanças climáticas de origem antropogénica continuam a impactar os padrões climáticos gerais.

No Ártico, para sermos exatos, a primavera está começando uma média de 16 dias antes do que há apenas uma década. Um estudo da revista Scientific Reports observou um aumento no número de recordes de altas temperaturas na primavera, juntamente com mudanças no período das migrações de pássaros, das florações e de outros indicadores sazonais.

O que torna isso ainda mais perturbador é o fato de os cientistas terem descoberto uma ligação direta e forte entre as temperaturas mais quentes do Ártico, as quantidades anormalmente altas de neve e as temperaturas frias mais ao sul da região. Assim, o clima severo pelo qual o nordeste dos EUA tem passado nesta primavera está diretamente ligado à onda de calor causada pelas mudanças climáticas que está afetando toda a região do Ártico.

Por fim nesta seção, mas talvez o dado mais importante, estima-se que o derretimento do permafrost do Ártico liberte mais metano do que previsto anteriormente. O metano é um gás de efeito estufa muito mais potente que o CO2, sendo 100 vezes mais forte em uma escala de tempo de 10 anos. O novo estudo descobriu que os solos alagados das zonas húmidas produzirão consideravelmente mais metano do que estimado anteriormente.

Negação e Realidade

Não há um só momento de tédio na terra encantada da negação das mudanças climáticas que é o governo Trump.

Um artigo recente e excelente publicado no The Conversation descreveu os quatro principais métodos usados por este governo para negar ou ocultar a realidade das mudanças climáticas causadas pelo homem. Esses métodos, de acordo com o artigo, são: dificultar o acesso a documentos em sites do governo, tirar páginas da web do ar, mudar a linguagem e silenciar a ciência. Mike Ludwig, do Truthout, também detalhou como as mudanças climáticas literalmente "desapareceram" da lista de ameaças aos EUA no governo Trump.

Enquanto isso, o gabinete continua a ser ocupado por negacionistas climáticos. Uma das mais recentes nomeações foi a do negacionista radical Mike Pompeo como Secretário de Estado, que, além dos laços antigos com os irmãos Koch, disse, em 2013, durante uma entrevista à rede C-SPAN: "Há cientistas que pensam muitas coisas diferentes sobre as mudanças climáticas. Alguns pensam que estamos aquecendo, outros pensam que os últimos 16 anos mostraram um ambiente climático bastante estável".

Um funcionário do governo Trump chegou recentemente a dizer que os cientistas da USGS "estavam fora de sua função" ao escreverem que as mudanças climáticas "reduziram drasticamente" as geleiras em Montana. Um dos cientistas que atacado respondeu: "É isto que fazemos... É a nossa função".

O secretário de Energia dos Estados Unidos, Rick Perry, que acha que usar óculos de armação grossa o faz parecer mais inteligente, disse recentemente que o esforço internacional para reduzir o uso de combustível fóssil era "imoral".

Enquanto isso, o diretor da Agência de Proteção Ambiental dos EUA, Scott Pruitt, que já era um conhecido e ávido negacionista do clima, contestou recentemente a evolução.

Do outro lado do front, o que lida com a realidade, milhares de cientistas dos 22 países da Commonwealth  clamaram por uma ação governamental mais firme contra as mudanças climáticas, para que haja esperança de manter o aquecimento global abaixo de 2°C.

Para enfatizar essa urgência, a demanda global por energia aumentou 2,1% em 2017 – mais do que o dobro da taxa do ano anterior, de acordo com a Agência Internacional de Energia. Segundo a agência, as emissões de CO2 relacionadas à energia também cresceram 1,4% em 2017, atingindo uma alta histórica de 32,5 giga toneladas.

Apesar dos sinais de alerta de todo o planeta, nenhum dos governos ao redor do mundo está tomando medidas dramáticas para mitigar os impactos das mudanças climáticas. O governo dos EUA, ao contrário, continua a se recusar a reconhecer que esses impactos existem. As forças mais poderosas do mundo estão adotando uma abordagem   business-as-usual , enquanto nos precipitamos em direção ao sexto evento de extinção em massa.

Dahr Jamail é reporter da equipa do site Truthout e autor dos livros The Will to Resist: Soldiers Who Refuse to Fight in Iraq and Afghanistan (Haymarket Books, 2009) e Beyond the Green Zone: Dispatches From an Unembedded Journalist in Occupied Iraq   (Haymarket Books, 2007). Jamail foi repórter no Iraque, Líbano, Síria, Jordânia e Turquia nos últimos 10 anos e ganhou, entre outros, o Prémio Martha Gellhorn de Jornalismo de Investigação.

Tradução de Clarisse Meireles

Fonte: Carta Maior

 

 

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