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SOLUÇÕES NATURAIS PARA AS MUDANÇAS CLIMÁTICAS
Autor: Justin Adams

01-12-2017

OXFORD – Na resposta às mudanças climáticas, o território é fundamental. Actualmente, a agricultura, a silvicultura e outros usos do território são responsáveis por perto de um quarto das emissões globais de gases com efeito de estufa. Mas a adopção de estratégias sustentáveis de ordenamento do território poderia proporcionar mais de um terço das reduções de emissões necessárias no curto prazo para manter o aquecimento bem abaixo da meta (2°C acima dos níveis pré-industriais) definida pelo acordo de Paris sobre o clima.

Desde há muito que as organizações conservacionistas como a minha trabalham no sentido de equilibrar a interacção entre pessoas e natureza. Mas só há pouco tempo conseguimos compreender inteiramente a importância da gestão do uso do território na abordagem às mudanças climáticas. Com o desenvolvimento da detecção remota, da inteligência artificial, e da modelização biogeoquímica, podemos prever melhor os resultados, e desenvolver estratégias para gerir e minimizar as consequências negativas.

Algumas das vias mais prometedoras para a mitigação das mudanças climáticas são as que denominamos por “soluções climáticas naturais”: a conservação, a recuperação e a melhoria da gestão do território, destinadas a aumentar o armazenamento de carbono ou a evitar emissões de gases com efeito de estufa em terrenos por todo o mundo. O potencial completo destas soluções é detalhado num novo estudo produzido pela minha organização, The Nature Conservancy, e por outras 15 instituições conceituadas.

Entre as soluções climáticas naturais mais importantes está a protecção das “florestas de fronteira”: florestas intocadas que servem de reservatórios naturais de carbono. As florestas tropicais e nórdicas, para além das savanas e dos ecossistemas costeiros, armazenam grandes quantidades de carbono, acumuladas ao longo dos séculos. Quando estas áreas são perturbadas, o carbono é libertado. A preservação dos habitats de fronteira também ajuda a regular os fluxos de água, reduz o risco de cheias, e preserva a biodiversidade.

A reflorestação é outra solução natural importante. Globalmente, estima-se que dois mil milhões de hectares (4,9 mil milhões de acres) de terreno tenham sido desmatados ou degradados. Como as árvores são a melhor tecnologia para captura e armazenamento de carbono de que o mundo dispõe, a inversão destes valores daria origem a uma redução significativa nos níveis globais de carbono. Estimamos que o mundo poderia capturar anualmente três gigatoneladas de CO2 , o equivalente a tirar mais de 600 milhões de automóveis das estradas, apenas com a plantação de mais árvores.

Um terceiro tipo de solução natural é a reforma da agricultura. Do campo ao prato, o sector alimentar é um importante contribuidor para as mudanças climáticas, através de emissões directas e indirectas, e pelos seus efeitos frequentemente negativos sobre a saúde dos solos e a desflorestação. Reconhecendo estes riscos, 23 empresas globais (incluindo a Nestlé, a McDonald’s, a Tesco, e a Unilever) assinaram recentemente um compromisso para suspender a desflorestação da savana do Cerrado, no Brasil. A região, que cobre um quarto do país, tem sofrido pressões crescentes devido à produção de carne de bovino, de soja, e de outras matérias-primas, para além das infra-estruturas associadas.

Como demonstra o compromisso do Cerrado, quando os governos e as empresas se reúnem para enfrentar os desafios associados à utilização do território, o impacto é enorme. Estima-se que as soluções climáticas naturais tenham potencial para reduzir as emissões de CO2 em 11,3 mil milhões de toneladas por ano, o equivalente a uma suspensão completa da combustão de petróleo, de acordo com o nosso estudo. Um estudo recente calculou que se o Brasil atingisse a desflorestação zero em 2030, acrescentaria 0,6% do PIB, ou perto de 15 mil milhões de dólares, à sua economia. As comunidades também colhem benefícios secundários, como a regeneração rural, a melhoria da segurança alimentar e do abastecimento de água, e a resiliência das zonas costeiras, quando se implementam soluções climáticas naturais.

Contudo, apesar dos dados que sustentam uma melhor tomada de decisões sobre a utilização do território, algo não bate certo. Em 2016, o mundo testemunhou um significativo aumento de 51% nas perdas florestais, o equivalente a uma área com o tamanho aproximado da Nova Zelândia. Precisamos de inverter imediatamente esta tendência, e de ajudar o mundo a compreender que o planeamento do território não é apenas uma questão de conservação.

Alguns países estão a dar passos no sentido certo. O governo Indiano, por exemplo, destinou 6 mil milhões de dólares aos estados para investimento na recuperação florestal. Na Indonésia, o governo criou uma agência dedicada à protecção e recuperação de turfeiras, pauis e ecossistemas pantanosos, que possuem uma enorme capacidade de armazenamento de CO2.

Mas esses países são as excepções. Dos 160 países que se comprometeram a implementar o acordo de Paris, só 36 incluíram o ordenamento do território nas suas estratégias para redução de emissões.

Não será fácil ultrapassar a inércia. As florestas, propriedades rurais e zonas costeiras variam em dimensão, tipo, e acessibilidade. Além disso, as vidas de centenas de milhões de pessoas estão ligadas a estes ecossistemas, e os projectos de recuperação da cobertura florestal ou de melhoria da saúde dos solos obrigam a um planeamento detalhado, que representa, para muitos governos, um enorme esforço.

Um modo de fazer com que as coisas andem, especialmente no sector agrícola, seria remover ou redireccionar os subsídios que encorajam o consumo excessivo de fertilizantes, água ou energia na produção de alimentos. Como os responsáveis governamentais Indianos lembraram aos seus pares durante uma reunião da Organização Mundial do Comércio no princípio deste ano, as reformas agrícolas significativas só poderão iniciar-se quando os países ricos diminuírem os subsídios “desproporcionadamente elevados” que concedem aos seus agricultores.

O apoio à inovação e ao empreendedorismo também podem ajudar a motivar a mudança. Processos e tecnologias inovadoras de planeamento paisagístico, análise de solos, irrigação, e até proteínas alternativas, como carne à base de plantas, estão a tornar mais sustentáveis a agricultura e a utilização do território. Semelhantemente, as mudanças na indústria da construção, que está a orientar-se para produtos de produções mais eficientes como a madeira lamelada-colada cruzada (CLT), podem ajudar a reduzir a poluição por carbono.

Finalmente, as opções de financiamento para as soluções climáticas naturais devem ser consideravelmente aumentadas. Embora os pagamentos para conservação florestal comecem a surgir, ao abrigo do programa REDD+ da ONU, e o Fundo Verde para o Clima tenha destinado 500 milhões de dólares para pagamentos para protecção florestal, o investimento público total na utilização sustentável do território permanece inadequado. De acordo com a Climate Policy Initiative, o financiamento público para a agricultura, silvicultura, e atenuação no domínio do uso do solo atraiu apenas 3 mil milhões de dólares em 2014, comparados com os 49 mil milhões para a produção de energia renováveis e os 26 mil milhões para a eficiência energética.

Na reunião da ONU sobre as mudanças climáticas recentemente realizada em Bona, na Alemanha, os líderes globais reafirmaram que o mundo não consegue responder de forma adequada ao aumento das temperaturas se os governos continuarem a ignorar o modo como são geridas as florestas, as explorações agrícolas, e as zonas costeiras. Agora que existe um consenso firme, os governos devem aproveitá-lo para agir.

Justin Adams

Justin Adams é Diretor Global para de Lands at the Nature Conservancy.

 

 

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